Poema. Ela quer que eu lhe escreva um poema. Eu não sei escrever poemas. Eu nunca li um livro de poesia na puta da vida. Sei dois ou três de cor, mas acho que não servem. “Uma mosca sem valor/pousa com a mesma alegria/na careca do doutor/como em qualquer porcaria.” Não. Tem de ser assim uma coisa romântica. Do que é que ela tinha de se lembrar! “Em cima daquele monte/mandei construir um castelo/para tu me contemplares/como eu te contempelo!” Não, ela se calhar já ouviu este. Ou então não, e vai ler “contempelo” e pensa que eu sou um ignorante e não sei escrever, não vai perceber que é para rimar. Ela não é muito esperta. Claro que não é! Uma mulher esperta não pede a um homem que lhe escreva um poema! Pede um jantar, um passeio, uma viagem a Paris, um fim-de-semana num hotel de luxo com pétalas de rosa espalhadas pela cama. Que estupidez pedir um poema. Vou dizer o quê? Que mariquice. Ah os teus olhos azuis como o céu, o teu cabelo negro ondulado como as ondas de um mar de outono, a tua pele alva suave e doce como… ah, sei lá… E ainda por cima nada disto rima uma coisa com a outra. E a saudade? Não há poemas de amor sem falar da saudade. Ah, o meu coração rasga-se em mil pedaços em cada dia que acordo sem ti… Que coisa tão brejeira, meu Deus! Ah, a primeira vez que os meus olhos te encontraram, a sublime imagem dos teus contornos levantaram-me do chão… Porra, levantaram-me nada do chão, quando te vi a primeira vez foi como levar com uma bigorna gigante nos cornos! E agora como é que eu explico isto num poema? E nada rima com cornos! Só fornos. E porque raio iria eu falar de fornos num poema? É para ser amor, não é culinária! Não pode ser um desenho? Daqueles com corações e setas a atravessar e um arco-íris e o Bambi? Um poema… bem, deixa ver. Posso rimar amor com flor, coração com tesão, desejo com solfejo – sim, é música, resulta – vida com… o que é que rima com vida? Nada rima com vida! Ah, porra, eu nem gosto assim tanto dela! À merda com o poema!
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Poema
Poema. Ela quer que eu lhe escreva um poema. Eu não sei escrever poemas. Eu nunca li um livro de poesia na puta da vida. Sei dois ou três de cor, mas acho que não servem. “Uma mosca sem valor/pousa com a mesma alegria/na careca do doutor/como em qualquer porcaria.” Não. Tem de ser assim uma coisa romântica. Do que é que ela tinha de se lembrar! “Em cima daquele monte/mandei construir um castelo/para tu me contemplares/como eu te contempelo!” Não, ela se calhar já ouviu este. Ou então não, e vai ler “contempelo” e pensa que eu sou um ignorante e não sei escrever, não vai perceber que é para rimar. Ela não é muito esperta. Claro que não é! Uma mulher esperta não pede a um homem que lhe escreva um poema! Pede um jantar, um passeio, uma viagem a Paris, um fim-de-semana num hotel de luxo com pétalas de rosa espalhadas pela cama. Que estupidez pedir um poema. Vou dizer o quê? Que mariquice. Ah os teus olhos azuis como o céu, o teu cabelo negro ondulado como as ondas de um mar de outono, a tua pele alva suave e doce como… ah, sei lá… E ainda por cima nada disto rima uma coisa com a outra. E a saudade? Não há poemas de amor sem falar da saudade. Ah, o meu coração rasga-se em mil pedaços em cada dia que acordo sem ti… Que coisa tão brejeira, meu Deus! Ah, a primeira vez que os meus olhos te encontraram, a sublime imagem dos teus contornos levantaram-me do chão… Porra, levantaram-me nada do chão, quando te vi a primeira vez foi como levar com uma bigorna gigante nos cornos! E agora como é que eu explico isto num poema? E nada rima com cornos! Só fornos. E porque raio iria eu falar de fornos num poema? É para ser amor, não é culinária! Não pode ser um desenho? Daqueles com corações e setas a atravessar e um arco-íris e o Bambi? Um poema… bem, deixa ver. Posso rimar amor com flor, coração com tesão, desejo com solfejo – sim, é música, resulta – vida com… o que é que rima com vida? Nada rima com vida! Ah, porra, eu nem gosto assim tanto dela! À merda com o poema!
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