Não sei a
que sabe a tua pele. Pudera eu saber. Mas o guardião da minha hipocondria
emocional prende-me dentro desta masmorra que sou eu. Fecha-me nesta prisão que
me sufoca a voz e congela o centro de comando dos meus movimentos, fazendo-os
descoordenados, sem noção das básicas funções do corpo e dos músculos. Ah! Como
eu trocava a memória de todos os sabores de todas as peles por um momento. E
soubesse tão mal, fosse a tua pele tão repugnante que algum mecanismo de
defesa, algum fenómeno subconsciente de protecção me fizesse esquecer a tua
existência. Como nos esquecemos de um episódio traumático. Uma amnésia
selectiva! Que paz seria. Que descanso poderia ter a minha alma. Mas não
acredito. Porque quando somos abalroados por este turbilhão de sentimentos que
nos seca a boca, que nos dilata as pupilas ao ponto da luz se tornar dolorosa, as
mãos transpirarem e tremerem, de as cordas vocais se emaranharem umas nas
outras e não saberem como vibrar… não interessa a que sabe a tua pele.
Certamente que os impulsos que transportam a informação das papilas gustativas
ao hipotálamo – ou a qualquer outra parte do cérebro que seja responsável por
os traduzir – iriam gritar que a tua pele sabe a céu, que é o paladar mais
imenso e perfeito provado por um homem. Se houvesse tempo para isso. Se a acção
tão avassaladora de ter a tua pele na minha boca não causasse um colapso
instantâneo. Ah! Pudera eu ter a coragem de abocanhar qualquer parte de ti. E o
verbo é “poder”, não “ter”. Porque para ter coragem, primeiro é preciso poder
tê-la. E para poder, é desde logo preciso uma dose inicial de coragem. E nem
essa tenho. Ah! Mas há quem tenha. E quem saiba a que sabe a tua pele. Quem a
conheça e a percorra e a agarre. A quem lhe seja familiar a textura, o relevo,
as curvas. Que morram mil mortes! Que lhes sequem as almas e enlouqueçam de
dor! Não, não que enlouqueçam. Que sofram cada momento até se expirarem, e que
saibam que essa dor vem de não serem merecedores do sabor da tua pele. Ninguém
merece conhecer o teu sabor. Só eu. É a minha pele! Pudera eu saber a que sabe
a tua pele.

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