quinta-feira, 10 de julho de 2014

Sonho




Percebi que se pode resumir a forma como as pessoas hoje olham para a religião e para a maneira com agem no mundo, com uma frase: “Pedi a Deus uma bicicleta. Mas sei que Deus não funciona assim. Portanto roubei uma bicicleta e pedi perdão a Deus”. Percebi isto num sonho. Onde estava a conversar com uma amiga, fervorosamente católica, sobre o acto da confissão, sobre pecados e perdão. E ela contava-me como quando se sentia culpada de alguma acção, um “pecado”, ia ter com o seu padre e confessava-se. Arrependia-se, pedia perdão, limpava a sua consciência. E perguntei-lhe – Arrependeste-te em consciência, pediste perdão, sentiste-te perdoada, então… nunca mais na tua vida vais repetir esse pecado, certo? – Não sei, não posso garantir. – Foi a resposta. Aí percebi este negócio da confissão e do perdão. É uma espécie de lavagem automática da alma. Erro, peço perdão, limpo a consciência, e estou pronto para voltar a pecar. Não é mais que um exercício de egoísmo, de tirar um peso de cima, aquele peso negro da culpa, da consciência ferida. Esta é a relação que as pessoas têm com o seu deus. E desse sonho acordei com uma nova visão do mundo, da vida, de Deus. Não há pecado, não há erro, não há certo ou errado. Se algo fosse errado aos olhos de Deus, Ele não nos daria sequer a capacidade de o fazer. Todos somos parte de Deus e estamos nesta existência física a experienciar tudo o que a nossa alma já sabe. Não há certo ou errado. Há sentir e experienciar. Foi isto que esse sonho me ensinou. É como os anos que vivi a esconder e recalcar o meu lado negro. Os meus ódios e sentimentos maus. Negava-os, recalcava-os. Não admitia a mim mesmo que sequer os tinha. Não podia ter. Eu era paz, amor, não havia lugar para sentimentos negativos. Nada mais errado. Eu tenho sentimentos maus, eu tenho uma parte de mim, imensa, negra, sombria, sádica. É o que eu sou. É parte de mim. E aprendi que o meu equilíbrio está aí, em admitir que tenho tanto de mau como de bom. É assim que encontro a minha paz. Hoje sei que não há bem nem mal, certo ou errado. Somos livres. Absolutamente livres para amar, odiar, salvar, condenar.


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